Duas amigas e uma aposta
A Mari e eu somos amigas desde a faculdade. Já dividimos apartamento, viagem, segredo e até o mesmo ex-namorado, em épocas diferentes. Achei que não existia mais nada que a gente não soubesse uma da outra. Estava enganada.
Foi numa sexta, num bar de sinuca na Augusta. A gente já tinha tomado umas três caipirinhas quando ela inventou a aposta:
— Uma partida de sinuca. Quem perder tem que realizar uma fantasia da outra. Qualquer uma.
— Qualquer uma? — perguntei, desconfiada.
— Qualquer uma. Sem direito a recusar.
Eu jogo sinuca muito bem. A Mari sabe disso. Mesmo assim, ela insistiu, com um sorriso estranho. Começamos a partida, e eu fui encaçapando uma bola atrás da outra, até restar só a preta. Era só acertar. Uma tacada fácil, no meio da mesa.
Olhei para a Mari. Ela estava encostada na parede, de calça de couro e blusa de alcinha, mordendo o canudo da caipirinha e me olhando de um jeito que eu nunca tinha reparado. Ou tinha, e fingia que não.
Errei a tacada de propósito. A bola preta passou longe da caçapa. A Mari levantou uma sobrancelha.
— Você errou essa?
— Errei. Você ganhou. Qual é a sua fantasia?
Ela largou o copo na mesa, chegou perto de mim, tirou o taco da minha mão e encostou na mesa de sinuca.
— Você sabe qual é. Faz dez anos que você sabe.
Eu sabia. Sempre soube. As noites dividindo a mesma cama na república, os abraços que demoravam demais, aquela vez no Carnaval de Salvador em que a gente quase se beijou e fingiu que tinha sido a bebida.
— Aqui? — perguntei, olhando para o bar cheio.
— Aqui não. — Ela pegou minha mão. — Lá em casa. Agora.
O táxi demorou doze minutos que pareceram doze horas. No banco de trás, ela entrelaçou os dedos nos meus e não disse nada. Quando entramos no apartamento dela, ela nem acendeu a luz. Me encostou na porta e me beijou, finalmente, depois de dez anos de "quase".
Foi estranho e familiar ao mesmo tempo. Eu conhecia aquele perfume, aquela risada, aquele cabelo. Mas não conhecia aquela boca, aquelas mãos, aquele jeito dela de tirar minha roupa como se estivesse desembrulhando um presente que tinha esperado muito para abrir. Fomos descobrindo tudo devagar, entre risadas nervosas e silêncios cheios.
De madrugada, deitadas no tapete da sala, ela perguntou:
— Você errou aquela tacada de propósito, né?
— Óbvio. Eu nunca erro a preta.
Ela riu e me puxou para perto. Dez anos de amizade não acabaram naquela noite. Só ganharam um capítulo que a gente devia ter escrito muito antes.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
