Diário de uma acompanhante
Tenho um caderno de capa vermelha onde anoto cada encontro desde que comecei a trabalhar como acompanhante. Não anoto nomes, só iniciais, datas e uma frase sobre como foi. É um jeito de não me perder, de lembrar que cada noite é diferente.
A maioria das páginas é parecida. "Tímido, educado, rápido." "Divertido, bebeu demais." "Gentil, deixou gorjeta." Mas tem uma inicial que aparece mais do que todas as outras: R.
O R. me procurou pela primeira vez numa terça chuvosa. Chegou no flat de terno amarrotado, sentou na poltrona e ficou me olhando, sem saber o que fazer.
— Eu nunca fiz isso — ele disse.
— Tudo bem. A gente faz o que você quiser.
— Eu quero conversar. Só isso. Posso?
Conversamos por duas horas. Ele era médico, trabalhava em plantões de trinta e seis horas, tinha perdido a esposa num acidente dois anos antes e não conseguia conversar com ninguém sobre isso. Não queria terapeuta, não queria amigos. Queria alguém que não conhecesse a história dele.
No caderno, escrevi: "R. — Só conversa. Chorou. Agradeceu."
Ele voltou na semana seguinte. E na outra. E na outra. Sempre terças, sempre duas horas, sempre conversa. Às vezes ele deitava no sofá com a cabeça no meu colo e falava da esposa, do hospital, dos pacientes que perdia. Eu fazia cafuné e ouvia. Era o encontro mais íntimo que eu tinha, e a gente nunca tinha se tocado além disso.
"R. — Riu pela primeira vez." "R. — Contou da lua de mel em Paraty." "R. — Disse que eu sou a única pessoa que ele espera ver."
Depois de seis meses, numa terça como as outras, ele chegou diferente. Sem terno, de camiseta e jeans. Com flores.
— Hoje eu não quero só conversar — ele disse, sem sentar na poltrona.
— O que você quer?
— Eu quero voltar a sentir. Com alguém que eu confio. E eu só confio em você.
Eu já tinha estado com muitos homens. Mas naquela terça eu fiquei nervosa como se fosse a primeira vez. Ele me beijou com uma delicadeza que me fez fechar os olhos. Tirou minha roupa devagar, como quem pede desculpas por ter demorado tanto. E a cada toque, ele me olhava nos olhos, como quem confere se está tudo bem. Estava. Estava muito mais do que bem.
Depois, deitados no sofá onde ele costumava chorar, ele disse:
— Obrigado por me esperar.
— Eu não estava esperando.
— Estava. Eu sei que estava.
No caderno de capa vermelha, naquela noite, eu não consegui escrever só uma frase. Escrevi a página inteira. Foi a última página do caderno. Comprei um novo no dia seguinte, mas nunca anotei nada nele. O R. continua aparecendo às terças. Só que agora ele não paga mais. E eu já não trabalho às terças para mais ninguém.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
