Confissões no consultório
Sou terapeuta de casais há quinze anos. Já ouvi de tudo no consultório. Traição, ciúme, dívidas, sogras. Mas o caso mais comum é o mais simples: casais que se amam, mas esqueceram como se desejar.
A Patrícia e o Roberto chegaram numa segunda-feira. Casados havia doze anos, dois filhos, uma casa bonita, uma rotina perfeita. E nenhum toque havia oito meses.
— A gente não briga — ela disse. — A gente só... virou colega de quarto.
— Eu amo ela — ele disse. — Mas quando a gente deita, eu só penso nas contas e no trabalho.
Eu já tinha ouvido aquela história centenas de vezes. E sabia que conversar sobre o problema não ia resolver. Eles precisavam de outra coisa.
— Vou passar uma tarefa de casa — eu disse. — É estranha, mas vocês precisam cumprir à risca.
Eles se olharam, desconfiados.
— Durante as próximas duas semanas, está proibido qualquer coisa além de beijo.
— Proibido? — o Roberto riu. — Mas a gente já não faz nada.
— Exatamente. Agora é proibido. E vocês vão se beijar todos os dias, por pelo menos dez minutos. Sem celular, sem televisão, sem filhos. Só beijo. E toda noite, cada um vai escrever num papel uma coisa que gostaria de fazer com o outro, e colocar numa caixa. Ninguém lê até a próxima sessão.
Duas semanas depois, eles voltaram. Eu percebi na porta. Ela estava de vestido, batom, cabelo solto. Ele de camisa nova. Sentaram no sofá de mãos dadas, e ele não largou a mão dela a sessão inteira.
— E aí? Como foi?
A Patrícia ficou vermelha e riu. O Roberto pigarreou.
— Foi... difícil — ele disse.
— Difícil por quê?
— Porque a gente não aguentou — ela confessou. — No quinto dia.
— Vocês quebraram a regra?
— No quinto, no sexto, no sétimo... — ele contou nos dedos, e os dois caíram na risada. — Desculpa, doutora.
— Não precisa pedir desculpa. A regra era para ser quebrada.
Eles me olharam surpresos.
— A proibição cria desejo — eu expliquei. — Quando uma coisa vira obrigação, ninguém quer. Quando vira proibida, todo mundo quer. E a caixa?
A Patrícia tirou da bolsa uma caixa de sapatos cheia de papeizinhos dobrados.
— A gente leu tudo — ela disse. — Na primeira semana.
— E?
— E a gente já fez metade da lista — o Roberto disse, com um sorriso de adolescente.
Eles tiveram alta em dois meses. Um ano depois, recebi um cartão de Natal deles. Uma foto dos dois numa praia, abraçados, bronzeados. Atrás, escrito à mão: "Ainda estamos cumprindo a lista. Obrigada, doutora. P. e R."
Guardei o cartão na gaveta do consultório. E de vez em quando, quando um casal novo chega dizendo que virou colega de quarto, eu passo a mesma tarefa de casa. Funciona quase sempre.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
