Confidências na academia
Comecei a treinar à noite porque precisava de uma hora só minha. Casada havia sete anos, com o Pedro trabalhando até tarde e a vida virando uma sequência de obrigações, a academia era o único lugar onde eu não era esposa, mãe ou funcionária. Era só eu, os pesos e a música alta no fone.
O personal se chamava Wagner. Quarenta anos, careca, braços enormes, sorriso fácil. Casado também, com a aliança sempre no dedo. A gente conversava entre as séries. Sobre filhos, sobre trabalho, sobre a vida.
Uma noite, depois de uma série de agachamento, eu sentei no banco e soltei, sem pensar:
— Meu marido não me olha mais.
O Wagner parou de contar as repetições. Sentou do meu lado.
— Como assim?
— Sete anos. Ele chega cansado, janta, dorme. Eu podia estar pelada na sala que ele não ia reparar.
Ele ficou quieto um tempo.
— A minha esposa diz a mesma coisa de mim.
— Sério?
— Sério. E ela tem razão.
A partir daquela noite, as nossas conversas mudaram. Eu contava do Pedro, ele contava da Sônia. Dos desencontros, das rotinas, das vontades que ninguém falava em voz alta. Era estranho e confortável ao mesmo tempo. Dois casados reclamando dos próprios casamentos para um estranho.
— Você sabe o que eu acho? — o Wagner disse, numa noite. — Que a gente está contando isso para a pessoa errada.
— Como assim?
— Eu devia estar dizendo isso para a Sônia. Você devia estar dizendo isso para o Pedro.
— Eu não tenho coragem.
— Nem eu. Então vamos fazer um trato. Hoje, quando a gente chegar em casa, cada um vai dizer para o outro uma coisa que sente falta. Uma só. E amanhã a gente conta como foi.
Eu cheguei em casa às dez. O Pedro estava no sofá, assistindo a um jogo, com o celular na mão. Eu sentei do lado dele, tirei o controle da mão dele e desliguei a televisão.
— Pedro. Eu sinto falta de você me olhar.
Ele me olhou. Ficou um tempo calado. E depois disse:
— Eu sinto falta de você me deixar olhar.
Aquela noite foi a mais longa e bonita conversa que a gente teve em sete anos. Ele me contou que achava que eu não queria mais nada com ele, que eu estava sempre cansada, sempre de mau humor, sempre ocupada. Eu contei que achava o mesmo dele. A gente riu da besteira de dois adultos que não conversavam. E depois a gente parou de conversar, porque não precisava mais de palavras.
No dia seguinte, na academia, o Wagner chegou com um sorriso enorme.
— E aí?
— Funcionou. E com você?
— A Sônia me levou para jantar fora. Pela primeira vez em três anos.
Rimos juntos, como dois cúmplices.
Eu continuo treinando com o Wagner. Mas agora o Pedro vai comigo, duas vezes por semana. E a Sônia também começou a treinar. Os quatro saem para jantar de vez em quando. O Wagner diz que é o personal trainer mais bem-sucedido do Brasil: salvou dois casamentos sem cobrar nada a mais por isso.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
