Cinquenta botões
Eu estava no altar, de vestido branco, véu, buquê de rosas, com duzentos convidados me olhando. O padre perguntou se eu aceitava o Rogério como meu legítimo esposo. E eu percebi, naquele segundo, que não aceitava. Que nunca tinha aceitado. Que estava ali por causa da minha mãe, da mãe dele, dos convites que já tinham sido impressos.
— Não — eu disse.
O silêncio foi a coisa mais barulhenta que eu já ouvi. Larguei o buquê no chão do altar e saí correndo pela nave da igreja, de salto, segurando a saia do vestido. Do lado de fora, chovia. Tinha um táxi parado na frente da igreja. Entrei sem pensar.
— Vai — eu disse. — Só vai.
O taxista me olhou pelo retrovisor. Uns trinta e cinco anos, barba por fazer, camisa xadrez. Olhou para o meu vestido, para o véu molhado, para a minha cara de choro. E não disse nada. Só ligou o carro e foi.
Ele dirigiu por meia hora sem perguntar nada. Ligou o rádio numa música baixinha. Me passou uma caixa de lenços pelo banco. Quando eu parei de chorar, ele finalmente falou.
— Para onde?
— Não sei. Para longe.
— Longe quanto?
— O mais longe possível.
Ele pegou a estrada. Dirigiu até o litoral. Duas horas. Eu fiquei olhando a chuva pela janela, de vestido de noiva, com o celular desligado na bolsa. Ele parou num posto e me trouxe um café e um pão de queijo, sem eu pedir.
— Obrigada.
— Não precisa agradecer.
— Você não vai me perguntar nada?
— Não é da minha conta. — Ele pausou. — Mas se quiser contar, eu escuto.
Eu contei tudo. O Rogério, a família, a pressão, os dez anos de namoro sem paixão. Ele ouviu sem julgar. Quando chegamos em Ubatuba, a chuva tinha parado e o sol estava se pondo no mar.
— Pronto. Longe o suficiente?
— Longe o suficiente.
Desci do táxi na praia, de vestido de noiva, e entrei no mar. Ele ficou na areia, olhando. Eu ri, chorei, mergulhei de véu e tudo. Quando saí, ele estava com uma toalha nas mãos, que tinha comprado num quiosque.
— Você é louca — ele disse.
— Eu sou livre.
— Isso também.
Ele se chamava Bento. Era taxista havia dez anos, solteiro, morava em São Paulo com um cachorro chamado Bigode. Naquela noite, ficamos numa pousada na frente da praia, cada um no seu quarto. Mas às duas da manhã, eu bati na porta dele, ainda com o vestido molhado de mar.
— Eu não consigo tirar esse vestido sozinha — eu disse. — São cinquenta botões.
Ele riu e me puxou para dentro. Tirou os cinquenta botões, um por um, devagar, com paciência de quem tinha dirigido duas horas sem fazer pergunta nenhuma. A cada botão, um beijo. No quadragésimo, eu já não aguentava mais esperar. No quinquagésimo, o vestido de noiva caiu no chão de madeira, e foi a melhor noite de núpcias de alguém que não tinha se casado.
Hoje eu sou casada. Com o Bento. O casamento foi na praia de Ubatuba, descalça, de vestido simples. Ele chegou de táxi.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
