Cinema drive-in
O drive-in tinha reaberto em Brasília depois de anos fechado, e todo mundo estava indo. Eu e o Murilo nos conhecemos num aplicativo e ele sugeriu o drive-in para o primeiro encontro. Achei original. Aceitei.
Ele me buscou num carro antigo, um Opala azul conservado, com bancos de couro e rádio de fita. Uns trinta anos, camisa de flanela, cabelo bagunçado, cheiro de perfume amadeirado. Gostei logo de cara.
— Esse carro é seu?
— Era do meu avô. Eu só tiro da garagem em ocasiões especiais.
— E isso é uma ocasião especial?
— Ainda não sei. Mas tenho esperança.
Estacionamos na última fileira do drive-in, perto das árvores. O filme era um clássico dos anos oitenta que eu já tinha visto umas dez vezes. Ele trouxe pipoca, refrigerante e uma manta de lã, porque a noite de Brasília esfria.
Nos primeiros vinte minutos, a gente assistiu ao filme. Comeu pipoca. Comentou as cenas. Ele ria de coisas que eu achava engraçadas e eu ria das imitações que ele fazia dos personagens.
Nos vinte minutos seguintes, a manta de lã estava sobre as nossas pernas e a mão dele tinha encontrado a minha embaixo dela.
Nos vinte minutos depois disso, eu já não sabia em que parte do filme a gente estava.
— Você sabe o que está acontecendo no filme? — ele perguntou, baixinho, com a boca muito perto da minha orelha.
— Não faço ideia.
— Nem eu.
O beijo foi demorado e quente. Os vidros do Opala foram embaçando devagar, até que a tela do cinema virou só uma luz colorida e borrada lá fora. O banco de couro era largo, do tipo inteiriço, sem divisão no meio, e o Murilo me explicou, rindo, que o avô dele tinha escolhido esse modelo de propósito.
— Seu avô era um homem esperto.
— Minha avó dizia que foi nesse banco que ela aceitou o pedido de casamento.
— Só o pedido?
— Ela nunca contou o resto.
A manta de lã escorregou para o chão do carro. A pipoca também. A blusa demorou um pouco mais, porque os botões eram pequenos e as mãos dele estavam nervosas. O Opala balançava de leve, e eu rezei para que os carros da frente estivessem prestando atenção no filme.
Quando os créditos começaram a subir e as luzes do estacionamento acenderam, a gente estava os dois desarrumados, rindo, procurando a minha sandália embaixo do banco.
— Como acabou o filme? — eu perguntei.
— Não faço a menor ideia.
— Então a gente vai ter que voltar.
— Semana que vem?
— Semana que vem.
A gente voltou na semana seguinte. E na outra. Durante três meses, a gente foi ao drive-in toda sexta-feira. Nunca vimos um filme até o fim. O Opala azul continua na garagem, e agora ele tira o carro para ocasiões especiais mais vezes do que o avô dele jamais imaginou.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
