Chuva no ponto de ônibus
O temporal começou do nada, como sempre acontece em São Paulo no fim da tarde. Eu saí do trabalho de saia lápis e blusa de seda branca e, em trinta segundos, estava encharcada, correndo para o ponto de ônibus coberto da Paulista.
Debaixo da cobertura, só havia um homem. Terno escuro, guarda-chuva preto fechado na mão, olhando para mim com uma expressão de quem está tentando muito não rir.
— Você tem um guarda-chuva e está aqui parado? — perguntei, indignada, tirando o cabelo molhado do rosto.
— Ele está quebrado. A primeira rajada de vento virou do avesso.
Rimos os dois. Foi aí que eu percebi que a minha blusa de seda branca, molhada, tinha ficado completamente transparente. Cruzei os braços na hora. Ele desviou o olhar, um cavalheiro, e tirou o paletó.
— Toma. Você vai ficar com frio.
O paletó tinha cheiro de perfume caro e estava quentinho do corpo dele. Vesti e agradeci, com o rosto pegando fogo. O ônibus não vinha. A chuva não parava. A gente conversou: ele era arquiteto, se chamava Henrique, morava a duas quadras dali, num prédio antigo da Bela Cintra.
— Meu ônibus deve demorar uma hora com esse trânsito — eu disse.
— Se você quiser esperar a chuva passar lá em casa, tem café, toalha seca e um secador de cabelo. Prometo me comportar.
— Promete?
Ele hesitou, olhando para mim com o paletó dele no corpo.
— Prometo tentar.
Corremos as duas quadras debaixo da chuva, rindo, ele segurando o guarda-chuva quebrado em cima de mim inutilmente. O apartamento era lindo, cheio de livros e plantas, com uma janela enorme que dava para a rua molhada. Ele me deu uma toalha e uma camisa dele, de botão, e foi fazer o café.
Troquei de roupa no banheiro. A camisa dele ia até o meio das minhas coxas. Quando voltei para a sala, ele estava parado com duas xícaras na mão e ficou um tempo sem dizer nada.
— Você disse que ia tentar se comportar — lembrei, pegando uma xícara.
— Eu estou tentando muito.
— Não precisa tentar tanto.
Ele colocou a outra xícara na mesa, devagar. Depois veio até mim, tirou o café da minha mão e colocou ao lado do dele. A camisa emprestada tinha seis botões. Ele abriu um por um, olhando nos meus olhos, como quem pergunta a cada botão se pode continuar. Eu respondi que sim seis vezes.
O café esfriou nas xícaras. A chuva lá fora parou às oito da noite, mas eu só fui para casa no dia seguinte, de táxi, com a blusa de seda branca seca e dobrada na bolsa. E a camisa dele no corpo, que eu nunca devolvi.
Hoje eu torço para chover toda sexta no fim do expediente. E desço do ônibus duas quadras antes, na Bela Cintra.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
