Café com canela
Eu passava naquela cafeteria do centro todo dia às sete e meia, antes do trabalho. Pedia sempre a mesma coisa: café com leite grande, com canela. A barista era uma morena de avental verde, cabelo preso num lenço colorido e uma tatuagem de andorinha no pulso. Chamava-se Rita, estava escrito no crachá.
No primeiro mês, ela escrevia meu nome no copo e só. "Caio". Letra redonda, com um coraçãozinho no pingo do i, que eu achava que ela fazia para todo mundo.
No segundo mês, começaram os recados.
"Bom dia, Caio. Hoje vai chover, leva guarda-chuva."
"Gostei da camisa azul."
"Você sorri bonito quando está com sono."
Eu lia os recados no metrô e chegava no escritório sorrindo. Comecei a escolher a roupa pensando no que ela ia achar. Comecei a chegar cinco minutos mais cedo para ter mais tempo de conversar no balcão.
No terceiro mês, os recados ficaram mais ousados.
"Fico pensando se você toma café na cama nos fins de semana."
"Seu perfume fica no balcão o dia inteiro. Não é justo."
"Tenho uma teoria sobre o que a canela faz com você."
Naquela sexta, o copo dizia só: "Saio às três. Me leva para um café que não seja este."
Às três em ponto, eu estava na porta da cafeteria. Ela saiu sem o avental, de vestido de alcinha amarelo e sandália baixa, com o lenço colorido agora amarrado no pulso, cobrindo a andorinha.
— Você veio — ela disse, como se tivesse duvidado.
— Eu passei três meses esperando esse recado.
— Eu passei três meses criando coragem para escrever.
Fomos a uma confeitaria antiga na Liberdade. Ela pediu um café coado e um bolo de laranja, e me contou que estudava gastronomia à noite e que sonhava ter a própria cafeteria um dia. Eu contei que era arquiteto e que desenhava casas que nunca ia ter dinheiro para morar.
— Qual era a teoria? — perguntei, no fim da tarde. — Sobre a canela.
Ela riu, ficando vermelha.
— A canela é afrodisíaca. Eu colocava um pouco a mais no seu café, todo dia.
— Então a culpa é sua.
— Do quê?
— De eu não conseguir parar de pensar em você.
Ela morava num apartamento pequeno em cima de uma padaria, que cheirava a pão e café o dia inteiro. Me levou lá no começo da noite e fez um café com canela, só para nós dois, na cozinha minúscula. Eu tomei um gole e ela me tomou a xícara da mão.
— Experimenta direto da fonte — ela disse, e me beijou com gosto de canela.
Foi doce e quente como o café dela. Devagar, como quem tem a noite inteira. Ela tinha uma pinta no ombro que eu beijei muitas vezes e uma risada que enchia o apartamento pequeno.
No domingo de manhã, ela me trouxe café na cama, respondendo à pergunta do copo. Hoje a gente tem uma cafeteria juntos, que eu desenhei. Na parede, emoldurados, estão todos os copos de papel com os recados.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
