Bodas de prata
Os filhos juntaram dinheiro e nos deram um cruzeiro pelo litoral brasileiro de presente de bodas de prata. Sete noites, cabine com varanda, tudo incluso. Eu e o Jorge, cinquenta e poucos anos, cabelos brancos, joelhos que reclamavam, achamos um exagero. Mas aceitamos.
Na primeira noite, no jantar de gala, eu coloquei um vestido longo azul que não usava desde o casamento da nossa filha mais velha. O Jorge colocou o terno. No meio do jantar, ele pegou minha mão por cima da mesa e disse:
— Você está mais bonita do que no dia em que eu te conheci.
— Mentiroso.
— Juro. Naquele dia você estava de aparelho nos dentes.
Rimos até a senhora da mesa ao lado olhar feio. Depois do jantar, tinha baile no salão principal. Uma banda tocando boleros e músicas antigas. Dançamos como não dançávamos havia anos, colados, devagar, os outros casais idosos em volta fazendo a mesma coisa.
— Lembra do baile de formatura? — ele perguntou, no meu ouvido.
— Lembro. Você pisou no meu pé a noite inteira.
— E depois a gente fugiu para a praia de Santos.
— E a minha mãe quase te matou.
Ele riu e me apertou mais.
— Que tal fugir agora?
Saímos do baile antes do fim, de mãos dadas pelos corredores do navio, rindo como dois adolescentes fugindo da festa. Na cabine, as luzes da cidade passavam pela janela da varanda enquanto o navio deslizava no mar escuro.
O Jorge abriu a porta da varanda e a brisa salgada entrou. Ele ficou atrás de mim, olhando o mar, e começou a abrir o zíper do vestido azul.
— Jorge, a gente não tem mais vinte anos.
— Eu sei. A gente tem cinquenta e três. E vinte e cinco anos de prática.
Ele tinha razão. Vinte e cinco anos de prática fazem diferença. Ele conhecia cada pedaço de mim, cada cicatriz, cada marca dos três partos, cada lugar onde eu gostava de ser beijada. E naquela noite, com o barulho do mar entrando pela varanda aberta e o navio balançando de leve, foi como se a gente se redescobrisse. Sem pressa, sem filhos batendo na porta, sem o despertador das seis.
— Eu tinha esquecido disso — eu disse, depois, deitada no peito dele.
— Disso o quê?
— De como é bom te ter só para mim.
Os sete dias do cruzeiro passaram voando. Nas paradas, a gente mal descia do navio. A tripulação começou a nos chamar de "os pombinhos da cabine 714". Os filhos ligavam para saber se estávamos aproveitando os passeios.
— Os passeios estão ótimos — o Jorge respondia, piscando para mim.
Quando voltamos, ele foi até a agência de viagens e reservou outro cruzeiro. Para as bodas de trinta anos, não. Para o mês seguinte.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
