BonecaHot Acompanhantes

Bilhete no para-brisa

24 de junho de 2026 2 min de leituraPor BonecaHot
Encontros

Eu estava atrasada, nervosa e de salto. Dei ré no estacionamento do supermercado sem olhar direito e ouvi o barulho horrível de plástico batendo. Desci correndo. Tinha amassado o para-choque de um SUV preto, lindo, novinho.

O dono não estava. Fiquei dez minutos esperando, depois escrevi um bilhete num papel de nota fiscal: "Desculpa! Fui eu que bati. Me liga que eu pago o conserto. Ana." E o telefone. Prendi no para-brisa e fui embora com o coração na mão.

Ele ligou à noite. Voz grave, calma.

— Ana? Aqui é o dono do SUV preto.

— Ai, meu Deus. Desculpa. Eu pago tudo, juro.

— Calma. Eu liguei para agradecer.

— Agradecer?

— Ninguém deixa bilhete hoje em dia. Você é a primeira pessoa honesta que eu encontro em meses.

Combinamos de nos encontrar na oficina, no sábado, para ele me mostrar o orçamento. Cheguei preparada para pagar uma fortuna. Ele estava encostado no carro, de óculos escuros, camiseta preta, uns trinta e oito anos, barba bem feita. Tirou os óculos e sorriu.

— Ana do bilhete.

— Eu mesma. Quanto ficou?

— Trezentos reais.

— Só?

— O mecânico é meu amigo. Mas eu tenho uma proposta. Você não me paga nada. Em troca, janta comigo.

Eu ri.

— Isso é chantagem.

— É negociação.

O jantar foi num restaurante italiano pequeno, com toalha xadrez e vinho da casa. Ele se chamava Fábio, era piloto de avião, morava sozinho, viajava muito e não tinha tempo para conhecer ninguém. Eu era veterinária e não tinha paciência para aplicativo de namoro.

— Então foi o destino — ele disse. — Você bateu no meu carro.

— Eu bati no seu carro porque estava atrasada.

— O destino usa os meios que tem.

Depois do jantar, ele me levou para casa no SUV ainda amassado. Na porta do meu prédio, desligou o carro e ficou me olhando.

— Eu viajo amanhã cedo. Dez dias em Lisboa.

— Que pena.

— É. Que pena. Eu queria muito te ver de novo.

— Então sobe.

Ele subiu. Meu gato olhou para ele com desconfiança e foi dormir na lavanderia. A gente nem chegou até o quarto na primeira vez. O sofá da sala serviu muito bem, e ele beijava como quem pilota: firme, seguro, sabendo exatamente para onde ia. Na segunda vez, a gente chegou ao quarto. Na terceira, já era quase hora do voo dele.

Ele mandou foto de Lisboa todos os dias. No décimo dia, voltou direto do aeroporto para a minha casa, de uniforme de piloto, com uma garrafa de vinho do Porto e um sorriso cansado.

— Senti falta da sua honestidade — ele disse, na porta.

— Só da honestidade?

— Não. Mas o resto eu te mostro lá dentro.

O para-choque nunca foi consertado. Ele diz que é um lembrete.

Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.

Leia também

Ver todos →