Banho de lua
Alugamos uma casa de praia em Ilhabela para comemorar os dez anos de casamento. A casa tinha uma piscina de borda infinita que parecia se misturar com o mar, e na primeira noite, a lua cheia nasceu bem na frente dela, laranja, enorme, refletindo na água.
— Vamos entrar? — o Henrique perguntou.
— Agora? É meia-noite.
— Melhor hora.
— Eu não trouxe o biquíni para fora.
— E precisa?
Olhei em volta. A casa ficava numa encosta, cercada de mata. As outras casas estavam longe, apagadas. O único barulho era o das ondas lá embaixo e dos grilos na mata.
— E se alguém ver?
— Quem? Os macacos?
Ele já estava tirando a camiseta. Eu ri e tirei o vestido. Entramos na piscina juntos, devagar, sentindo a água morna subir pelas pernas, pela cintura, pelos ombros. A lua iluminava tudo de prata.
— Faz quanto tempo que a gente não faz uma loucura dessas? — ele perguntou.
— Desde aquela vez na praia de Trindade.
— Que a polícia passou.
— E você fingiu que estava procurando a aliança na areia.
Rimos tanto que engolimos água. Ele nadou até mim e me encostou na borda da piscina, do lado que dava para o mar. A lua estava atrás dele. A água morna, o ar frio da noite, o corpo dele quente contra o meu. Ele me beijou devagar, com gosto de cloro e de vinho, e eu senti a mesma vontade de dez anos antes, quando a gente namorava escondido no carro do pai dele.
— Dez anos — ele disse, com a boca no meu pescoço.
— Dez anos.
— E eu ainda fico assim quando você tira o vestido.
— Assim como?
— Assim.
A piscina tinha uma escada larga, de degraus rasos, onde a água batia na cintura. A gente ficou ali, metade dentro, metade fora, com a lua subindo no céu e mudando de laranja para branco. Não tinha pressa. Tinha a noite inteira, a casa inteira, ninguém para interromper. O barulho da água acompanhava os nossos movimentos e as ondas lá embaixo pareciam aplaudir.
De madrugada, a gente saiu da piscina enrolado na mesma toalha e deitou numa espreguiçadeira, olhando a lua já alta no céu.
— Eu quero fazer isso todo ano — ele disse.
— Banho de lua?
— Banho de lua. Toda lua cheia, se der.
— A gente mora num apartamento no décimo andar, Henrique.
— A gente tem banheira.
— Não é a mesma coisa.
— Não. Mas a gente dá um jeito.
No dia seguinte, um vizinho que a gente nem sabia que existia passou na frente da casa, de bermuda e chapéu, e acenou para nós na varanda.
— Bela lua ontem, hein? — ele disse, com um sorriso.
Eu fiquei roxa de vergonha. O Henrique acenou de volta, tranquilo.
— Linda. A mais bonita que eu já vi.
Hoje a gente volta para aquela casa todo ano, no aniversário de casamento. Sempre conferimos o calendário antes de reservar: tem que ser em noite de lua cheia. E sempre acenamos para o vizinho.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
