BonecaHot Acompanhantes

Banho de lua

29 de abril de 2026 3 min de leituraPor BonecaHot
Casais

Alugamos uma casa de praia em Ilhabela para comemorar os dez anos de casamento. A casa tinha uma piscina de borda infinita que parecia se misturar com o mar, e na primeira noite, a lua cheia nasceu bem na frente dela, laranja, enorme, refletindo na água.

— Vamos entrar? — o Henrique perguntou.

— Agora? É meia-noite.

— Melhor hora.

— Eu não trouxe o biquíni para fora.

— E precisa?

Olhei em volta. A casa ficava numa encosta, cercada de mata. As outras casas estavam longe, apagadas. O único barulho era o das ondas lá embaixo e dos grilos na mata.

— E se alguém ver?

— Quem? Os macacos?

Ele já estava tirando a camiseta. Eu ri e tirei o vestido. Entramos na piscina juntos, devagar, sentindo a água morna subir pelas pernas, pela cintura, pelos ombros. A lua iluminava tudo de prata.

— Faz quanto tempo que a gente não faz uma loucura dessas? — ele perguntou.

— Desde aquela vez na praia de Trindade.

— Que a polícia passou.

— E você fingiu que estava procurando a aliança na areia.

Rimos tanto que engolimos água. Ele nadou até mim e me encostou na borda da piscina, do lado que dava para o mar. A lua estava atrás dele. A água morna, o ar frio da noite, o corpo dele quente contra o meu. Ele me beijou devagar, com gosto de cloro e de vinho, e eu senti a mesma vontade de dez anos antes, quando a gente namorava escondido no carro do pai dele.

— Dez anos — ele disse, com a boca no meu pescoço.

— Dez anos.

— E eu ainda fico assim quando você tira o vestido.

— Assim como?

— Assim.

A piscina tinha uma escada larga, de degraus rasos, onde a água batia na cintura. A gente ficou ali, metade dentro, metade fora, com a lua subindo no céu e mudando de laranja para branco. Não tinha pressa. Tinha a noite inteira, a casa inteira, ninguém para interromper. O barulho da água acompanhava os nossos movimentos e as ondas lá embaixo pareciam aplaudir.

De madrugada, a gente saiu da piscina enrolado na mesma toalha e deitou numa espreguiçadeira, olhando a lua já alta no céu.

— Eu quero fazer isso todo ano — ele disse.

— Banho de lua?

— Banho de lua. Toda lua cheia, se der.

— A gente mora num apartamento no décimo andar, Henrique.

— A gente tem banheira.

— Não é a mesma coisa.

— Não. Mas a gente dá um jeito.

No dia seguinte, um vizinho que a gente nem sabia que existia passou na frente da casa, de bermuda e chapéu, e acenou para nós na varanda.

— Bela lua ontem, hein? — ele disse, com um sorriso.

Eu fiquei roxa de vergonha. O Henrique acenou de volta, tranquilo.

— Linda. A mais bonita que eu já vi.

Hoje a gente volta para aquela casa todo ano, no aniversário de casamento. Sempre conferimos o calendário antes de reservar: tem que ser em noite de lua cheia. E sempre acenamos para o vizinho.

Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.

Leia também

Ver todos →