Aula de culinária
Eu queimei o risoto na primeira aula. Desandei o molho bechamel na segunda. Na terceira, a massa fresca grudou na mesa, no avental, no cabelo e na cara do meu colega da bancada. O resto da turma ria. O chef, um italiano de Bolonha chamado Lorenzo, suspirava e passava a mão no rosto.
— Signorina Beatriz — ele disse, no fim da aula, enquanto eu limpava farinha do cabelo. — Posso ser honesto?
— Pode.
— Você é a pior aluna que eu já tive.
— Eu sei. Eu quero desistir.
— Não. Você vai fazer aulas particulares. Sem custo. Porque eu me recuso a deixar alguém sair da minha escola sem saber fazer uma massa decente.
A primeira aula particular foi numa quarta-feira à noite, na cozinha da escola vazia. Só eu, ele, um saco de farinha e uma dúzia de ovos.
— A massa é como o amor — ele disse, colocando a farinha em montinho na bancada de mármore e fazendo um buraco no meio. — Precisa de paciência, de calor das mãos e de não ter medo de se sujar.
Ele quebrou os ovos no buraco e começou a misturar com os dedos. Eu tentei imitar. Fiz uma lambança. Ele riu, ficou atrás de mim, colocou as mãos sobre as minhas e começou a guiar.
— Assim. Devagar. Sinta a massa.
Eu sentia. Sentia as mãos dele sobre as minhas, o peito dele encostado nas minhas costas, a respiração dele no meu pescoço. A massa, que eu nunca tinha conseguido acertar, começou a ficar lisa e macia debaixo das nossas mãos.
— Viu? — ele sussurrou. — Você só precisava de alguém para te guiar.
Eu virei o rosto. Ele estava muito perto. Tinha farinha no nariz dele.
— Lorenzo, você tem farinha no nariz.
— E você tem farinha em todo lugar.
O beijo foi com gosto de farinha e ovo. Ele me sentou na bancada de mármore, no meio da massa, e eu nem liguei. Minhas mãos sujas deixaram marcas brancas na camisa preta dele, no pescoço, no rosto. As dele deixaram marcas no meu vestido, na minha pele, no meu cabelo. A massa que a gente tinha feito ficou esquecida na bancada, ressecando.
— A massa vai estragar — eu disse, num momento de lucidez.
— A gente faz outra. Eu tenho muita farinha.
As aulas particulares continuaram toda quarta. Eu aprendi a fazer tagliatelle, ravioli, lasanha, nhoque. Mas nunca, em nenhuma quarta-feira, a gente conseguiu terminar a receita. A massa sempre ficava para depois.
Hoje eu cozinho muito bem. O Lorenzo diz que eu sou a melhor aluna que ele já teve. E que a nossa cozinha de casa é a mais suja de São Paulo, porque a gente nunca consegue terminar de cozinhar sem fazer outra coisa no meio.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
