Aniversário surpresa
O Ricardo ia fazer quarenta anos e estava deprimido com isso. Reclamava dos cabelos brancos, da barriga, dos joelhos. Eu decidi fazer uma festa surpresa para ele, com os amigos de infância, a família, os colegas de trabalho. Foram dois meses planejando em segredo.
A festa foi linda. Ele chegou em casa achando que íamos jantar fora, abriu a porta e cinquenta pessoas gritaram "surpresa!". Ele chorou. Abraçou todo mundo. Dançou com a mãe dele. Cantou no karaokê com os amigos da escola. Às duas da manhã, os últimos convidados foram embora e ele desabou no sofá, exausto e feliz.
— Foi a melhor festa da minha vida — ele disse.
— Ainda não acabou.
— Como assim?
— Ainda falta o seu presente.
Ele franziu a testa.
— Você já me deu o relógio.
— O relógio foi o presente oficial. Esse é o extraoficial.
Eu fui para o quarto e fechei a porta. Tirei da gaveta a caixa que eu tinha escondido havia um mês. Dentro, uma lingerie vermelha de renda, que eu tinha escolhido numa loja onde fiquei uma hora criando coragem. Meia sete-oitavos. Salto alto. E um envelope.
Me arrumei. Acendi as velas que tinha espalhado pelo quarto. Coloquei a playlist que eu tinha montado com as músicas da época em que a gente se conheceu, vinte anos antes.
— Ricardo — chamei. — Pode vir.
Ele abriu a porta e parou. Ficou parado um tempão, segurando a maçaneta, olhando para mim sentada na beira da cama, de pernas cruzadas, à luz das velas.
— Você... — ele começou, e não terminou.
— Feliz aniversário, amor.
— Eu achei que... depois de vinte anos...
— Depois de vinte anos o quê?
— Que você não me olhasse mais assim.
Eu estendi o envelope para ele. Dentro, uma lista que eu tinha escrito à mão. Quarenta itens. Quarenta coisas que eu queria fazer com ele, uma para cada ano de vida. Algumas românticas, algumas bobas, algumas que fizeram ele arregalar os olhos.
— Quarenta? — ele perguntou, lendo.
— Uma por ano. Você tem até os quarenta e um para completar.
— E se eu quiser começar agora?
— É para isso que eu estou vestida assim.
Ele riu e tirou a camisa, e eu vi que os quarenta anos não tinham levado nada do homem por quem eu me apaixonei. A barriga que ele reclamava, eu beijei. Os cabelos brancos, eu puxei. E os joelhos, aqueles que doíam, não reclamaram nenhuma vez naquela noite.
Às seis da manhã, ele riscou o primeiro item da lista. Às sete, o segundo. A lista ficou presa na porta da geladeira por um ano, com um ímã de coração. Ele completou os quarenta itens em onze meses.
— E agora? — ele perguntou, no dia do aniversário de quarenta e um.
— Agora eu faço uma lista nova. Com quarenta e um.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
