Amor de carnaval
Minha regra para o carnaval era clara: beijar quem quiser, não pegar telefone de ninguém, voltar para casa na quarta-feira sem lembrar de nenhum nome. Amor de carnaval não sobe a ladeira, dizia minha avó pernambucana. E eu concordava.
Cheguei em Olinda na sexta, com três amigas, fantasias de sereia na mala e a regra na cabeça. No sábado, no meio do bloco, no alto da ladeira da Misericórdia, um homem fantasiado de pirata esbarrou em mim e derramou a cerveja dele inteira no meu biquíni de conchas.
— Desculpa! — ele gritou, por cima do frevo.
— Tudo bem! É carnaval!
Ele era recifense, se chamava Davi, tinha um tapa-olho de cartolina e um sorriso que derrubava qualquer regra. A gente dançou o bloco inteiro. Ele sabia todas as músicas, me ensinou os passos do frevo, me segurou quando eu quase caí na ladeira. No fim da tarde, ele me beijou debaixo de um boneco gigante, com confete caindo em nós dois.
— Qual é o seu nome? — ele perguntou.
— Sem nomes. É a minha regra.
— Então eu vou te chamar de Sereia.
No domingo, eu procurei o pirata no meio da multidão. Achei. Na segunda, ele me achou. Na terça, a gente nem fingiu mais: passamos o dia inteiro juntos, de bloco em bloco, de beijo em beijo. À noite, ele me levou para a casa de uma tia dele em Olinda, um sobrado colonial com janelas azuis, vazio porque a família inteira estava na rua.
O quarto dava para a ladeira. Lá fora, o frevo ainda tocava. Ele tirou o tapa-olho, eu tirei a coroa de conchas. O resto da fantasia saiu devagar, entre risadas e confete que caía da gente para o lençol. Ele beijava meus ombros queimados de sol e eu sentia o gosto de cerveja e de suor de carnaval na pele dele. Foi bagunçado, alegre e quente, igual ao carnaval.
— Me diz seu nome — ele pediu, de madrugada.
— Não. Amanhã eu volto para São Paulo e isso acaba.
— Por quê?
— Porque amor de carnaval não sobe a ladeira.
Na quarta-feira de cinzas, eu acordei sozinha no sobrado. Ele tinha deixado um bilhete: "Bom voo, Sereia." Voltei para o hotel, de coração apertado, fiz as malas, desci para o táxi.
Ele estava na porta do hotel, sem fantasia nenhuma, de camisa de botão e cabelo penteado, segurando um buquê de flores e uma passagem de avião.
— O nome do voo das três — ele disse. — Eu também vou para São Paulo. Tenho uma entrevista de emprego lá na semana que vem. E queria saber o seu nome antes de chegar.
— Clara — eu disse, chorando e rindo ao mesmo tempo.
— Prazer, Clara. Eu sou o Davi. E acho que esse amor de carnaval vai subir a ladeira, sim.
Minha avó, quando conheceu o Davi no Natal seguinte, olhou para ele de cima a baixo e disse:
— Pois é. Às vezes sobe.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
