A tradutora
A empresa me mandou para Buenos Aires para fechar um contrato com um fornecedor argentino. Meu espanhol era péssimo, então contrataram uma tradutora para me acompanhar nas reuniões. O nome dela era Valéria. Brasileira, morava lá havia dez anos, cabelo curto, olhos escuros e um jeito de falar que misturava português e espanhol de um jeito delicioso.
Durante três dias, ela foi a minha voz. Sentada ao meu lado em cada reunião, traduzindo cada frase, me cutucando por baixo da mesa quando eu ia dizer alguma besteira. No fim de cada dia, jantávamos juntos para preparar a reunião seguinte, e os jantares iam ficando cada vez mais longos e as conversas, cada vez menos sobre trabalho.
Na última noite, o contrato foi assinado. Comemoramos num restaurante em San Telmo, com um Malbec e um bife de chorizo enorme. Na saída, ouvimos música vindo de uma praça.
— Uma milonga — ela disse, com os olhos brilhando. — Você sabe dançar tango?
— Nem um pouco.
— Então vai aprender agora.
Na praça, dezenas de casais dançavam tango sob as luzes amarelas, ao som de um bandoneón. A Valéria me puxou para o meio deles, colocou minha mão nas costas dela e a dela no meu ombro.
— No tango, o homem conduz. Mas é a mulher que decide se quer ser conduzida.
— E você quer?
— Hoje eu quero.
Eu errei todos os passos. Pisei no pé dela três vezes. Mas ela ria, colava o corpo no meu, me guiava sem que eu percebesse. O tango é uma dança de corpos muito juntos, de pernas que se entrelaçam, de rostos que quase se tocam. Na terceira música, eu já não estava pensando nos passos.
— Você está aprendendo rápido — ela sussurrou, com o rosto colado no meu.
— É a professora.
Quando a música terminou, ela não se afastou. Ficou ali, abraçada, no meio da praça, a respiração dela no meu pescoço.
— Meu voo sai amanhã às dez — eu disse.
— Eu sei. Fui eu que remarquei para você.
— Então a gente tem até as dez.
O hotel ficava a quatro quadras. Andamos de mãos dadas, parando em cada esquina para um beijo. No quarto, ela colocou uma música no celular, um tango lento, e me fez dançar de novo, agora sem ninguém olhando, tirando a minha camisa a cada volta, deixando a blusa dela cair no meio do passo.
— Isso também é tango? — perguntei.
— Isso é a parte do tango que não se dança em público.
Perdi o voo das dez. Remarquei para o dia seguinte. E depois para o outro. O contrato com o fornecedor argentino rendeu muitas viagens a Buenos Aires. Nunca mais precisei de outra tradutora.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
