A professora de francês
Eu ia para Paris a trabalho em três meses e não falava uma palavra de francês além de "croissant". Contratei uma professora particular que dava aula na casa dela, um apartamento antigo em Higienópolis cheio de livros e plantas.
A professora se chamava Céline. Francesa de Lyon, morava no Brasil havia sete anos, cinquenta anos muito bem vividos, cabelo grisalho cortado curto, batom vermelho e um sotaque que transformava qualquer frase em poesia. Na primeira aula, ela me serviu um café e disse:
— O francês é uma língua sensual. Não se fala com a garganta, se fala com a boca. Repita: bonjour.
— Bonjour.
— Não. Mais devagar. Sinta a palavra nos lábios.
Eu repeti umas dez vezes. Ela ficava olhando a minha boca, corrigindo a posição dos lábios com o dedo, rindo da minha pronúncia horrível.
As aulas eram duas vezes por semana, e eu comecei a esperar por elas com uma ansiedade que não tinha nada a ver com Paris. Ela me ensinava vocabulário de restaurante, de hotel, de reunião de negócios. Mas sempre, no fim da aula, me ensinava uma palavra "de presente", como ela dizia.
— Hoje a palavra é frisson — ela disse, numa quinta à noite. — Sabe o que significa?
— Arrepio?
— Mais do que isso. É o arrepio de quando alguém que você deseja chega perto demais.
Ela chegou perto demais. Sentada ao meu lado no sofá, o livro de exercícios aberto nos nossos joelhos, ela encostou a boca no meu ouvido e repetiu, bem devagar: "frisson". Eu senti exatamente o que a palavra significava.
— Na próxima aula — ela disse, se afastando com um sorriso —, eu te ensino as palavras que não estão no livro.
Na aula seguinte, ela abriu a porta de robe de seda verde e taça de vinho na mão.
— Hoje a aula vai ser diferente. Imersão total. Só falamos em francês.
— Mas eu não sei falar francês.
— Então vai ter que aprender pelos gestos.
Ela me levou pela mão até o quarto, falando o tempo todo em francês, palavras que eu não entendia, mas que pelo tom de voz eu entendia perfeitamente. Me ensinou a dizer "embrasse-moi" e eu obedeci antes de saber o que era. Me ensinou "encore" e eu repeti muitas vezes naquela noite, com a pronúncia cada vez melhor.
Fui para Paris três meses depois. Meus colegas ficaram impressionados com o meu francês. "Você aprendeu muito rápido", disseram. O vocabulário de reuniões era razoável. Mas, nos restaurantes, eu fazia todo mundo rir pedindo o vinho com aquele sotaque cheio de frisson.
Quando voltei, a Céline perguntou como tinha sido.
— Faltou praticar uma palavra — eu disse.
— Qual?
— Encore.
As aulas continuam. Agora eu estou aprendendo italiano também. A Céline diz que também é uma língua muito sensual.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
