A pintora
Eu estava pintando uma série de quadros sobre o corpo masculino para uma exposição numa galeria de Santa Teresa. Faltava o último quadro e eu não tinha modelo. Os profissionais eram caros e eu estava sem dinheiro.
Da janela do meu ateliê, eu via a varanda do prédio vizinho, onde um homem tocava violão todo fim de tarde. Sem camisa, sentado num banquinho de madeira, com os pés descalços apoiados no parapeito. Um corpo comum, nem malhado demais, nem de menos. Ombros fortes, costas largas, uma cicatriz no braço. Perfeito para o meu quadro.
Escrevi um bilhete, dobrei, e joguei na varanda dele com uma pedrinha amarrada. Ele leu, olhou para a minha janela e sorriu.
"Sou pintora. Preciso de um modelo. Pago com vinho e jantar. Topa?"
Ele escreveu a resposta no verso e jogou de volta. Errou a janela duas vezes. Na terceira, acertou.
"Topo. Mas eu nunca fiz isso. Vou ficar com vergonha."
Ele apareceu no ateliê no sábado. Se chamava Ícaro, era músico, professor de violão, e estava visivelmente nervoso.
— Tenho que ficar sem roupa? — ele perguntou, olhando os outros quadros da série.
— Só se você quiser. Pode ficar com um lençol.
Ele ficou com um lençol branco enrolado na cintura, sentado num banquinho de madeira igual ao da varanda dele, segurando o violão. A luz da tarde entrava pela janela e batia nas costas dele de um jeito que fazia a pele parecer dourada.
Pintar alguém é a coisa mais íntima do mundo. Você observa cada detalhe. A curva do ombro. O desenho dos músculos das costas. A sombra embaixo da clavícula. A respiração que sobe e desce. Eu passei três horas observando cada centímetro daquele homem, e ele passou três horas sentindo meu olhar.
— É estranho — ele disse, no fim da primeira sessão. — Ninguém nunca me olhou desse jeito.
— Que jeito?
— Como se cada pedaço importasse.
A segunda sessão foi mais difícil. Ele estava mais relaxado, o lençol tinha escorregado um pouco, e eu não conseguia me concentrar. Errei a pincelada três vezes. Ele percebeu.
— Você está com o pincel parado há cinco minutos.
— Estou observando.
— Observando o quê?
— Você.
Ele largou o violão. Levantou do banquinho, segurando o lençol, e veio até o cavalete. Olhou o quadro pela metade. Depois olhou para mim. Eu tinha tinta azul nos dedos, no rosto, na camiseta.
— Posso? — ele perguntou, e pegou um pincel.
Ele passou o pincel molhado de tinta no meu braço. Devagar, desenhando uma linha. Depois no meu pescoço. Eu ri, nervosa. Ele sorriu e passou no meu ombro, puxando a alça da camiseta. A tinta era fria, o pincel macio e o olhar dele estava em chamas.
— Agora é a minha vez de observar — ele disse.
O lençol branco caiu no chão. A minha camiseta também. A gente se pintou inteiro. Azul, vermelho, amarelo. A gente se sujou no chão do ateliê, no meio dos pincéis e das telas, e terminou deitado numa lona coberta de tinta, rindo, colorido como um quadro abstrato.
O quadro dele nunca ficou pronto. Ficou pela metade, encostado na parede. Na exposição, coloquei no lugar dele uma foto da lona manchada de tinta. Título: "Modelo". Foi a obra mais comentada da exposição. Ninguém soube a história. Só eu e ele.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
