A gerente do banco
Eu estava com o cartão de crédito estourado e uma dívida que crescia a cada mês. Marquei horário na agência para renegociar, já esperando o pior: juros abusivos, uma atendente impaciente e uma hora de humilhação.
A gerente se chamava Débora. Cabelo preto preso num coque impecável, óculos de armação fina, terninho cinza e um sorriso profissional que desmontava qualquer um. Ela me recebeu na salinha de vidro e analisou meu extrato com uma sobrancelha erguida.
— O senhor gosta de restaurantes caros, pelo visto.
— É a minha fraqueza — admiti, envergonhado.
— Todo mundo tem uma.
Ela fez as contas, ofereceu um parcelamento razoável e eu quase chorei de alívio. Enquanto imprimia os papéis, ela tirou os óculos e massageou as têmporas.
— Dia difícil? — perguntei.
— Semana difícil. Meta de vendas, cliente gritando, gerente regional pegando no pé.
— E qual é a sua fraqueza?
Ela me olhou por cima do papel, com um meio sorriso.
— Vinho tinto e homens que fazem perguntas demais.
Assinei a renegociação. Ela grampeou as folhas, me entregou o boleto e, antes de eu sair, pegou de volta, escreveu alguma coisa no verso e devolveu.
"Sexta, 19h. Bar do Hotel Unique. Você paga o vinho. Considere parte da renegociação."
Na sexta, ela chegou sem o coque, sem os óculos e sem o terninho. Vestido preto colado, batom vermelho, cabelo solto até a cintura. Eu quase não reconheci.
— Você não parece a mesma pessoa — eu disse.
— No banco eu sou a Débora gerente. Aqui eu sou só a Débora.
Pedimos um vinho caro demais para quem tinha acabado de renegociar uma dívida. Ela riu da minha cara quando viu o preço. Conversamos sobre tudo, menos sobre dinheiro. Ela tinha uma risada alta que fazia as pessoas das outras mesas olharem, e não ligava nem um pouco.
Na segunda garrafa, ela colocou o pé descalço em cima do meu sapato, por baixo da mesa.
— Você sabe que eu poderia perder o emprego por isso, né? — ela disse. — Sair com cliente.
— Então por que você saiu?
— Porque você foi o primeiro cliente em cinco anos que perguntou como eu estava.
O hotel tinha quartos. Ela já tinha reservado um. Subimos de elevador, e entre o térreo e o décimo andar o vestido preto dela já tinha perdido uma das alças. No quarto, ela me empurrou na cama e subiu em cima de mim com uma autoridade que eu reconheci da salinha de vidro da agência.
— Agora quem negocia sou eu — ela disse.
Paguei a dívida em dia, todos os meses. A gerente fazia questão de conferir pessoalmente. Às sextas, no Hotel Unique.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
