A garota do bar
Trabalho como bartender num bar de jazz na Vila Madalena há seis anos. Luz baixa, palco pequeno, um piano de cauda velho e músicos que tocam como se a vida dependesse disso. Os clientes são quase sempre os mesmos. Eu conheço o drinque de cada um.
Mas ela era um mistério.
Toda quinta-feira, às dez em ponto, ela entrava sozinha. Sempre de vestido escuro, cabelo preto curto, batom vermelho, brincos compridos. Sentava no mesmo banco, no canto do balcão. Pedia sempre a mesma coisa: um negroni, sem gelo, com casca de laranja queimada.
— Boa noite — eu dizia.
— Boa noite — ela respondia, e mais nada.
Ela ouvia o primeiro show inteiro, de olhos fechados, balançando a cabeça de leve. Bebia o negroni devagar. Pagava em dinheiro. E ia embora antes do segundo show, sempre às onze e meia, sem falar com ninguém.
Durante três meses, foi assim. Eu comecei a preparar o negroni antes de ela chegar, às dez em ponto. Comecei a esperar a quinta-feira. Comecei a pensar nela nos outros dias da semana. Quem era? Por que vinha sozinha? Por que ia embora antes do último show?
Numa quinta de chuva, o pianista do segundo show tocou uma música que eu não conhecia. Lenta, triste, bonita. E ela, que já estava de pé, pegando a bolsa, parou. Sentou de novo. E ficou.
Ficou o segundo show inteiro. Ficou depois que o bar começou a esvaziar. Ficou depois que o pianista foi embora. Ficou até que só sobrou ela, eu e o barulho da chuva lá fora.
— O bar está fechando — eu disse, com cuidado.
— Eu sei. — Ela olhou para o piano vazio. — Essa música era do meu marido. Ele era pianista. Tocava aqui, neste bar, toda quinta. Faleceu há dois anos.
Eu fiquei sem palavras. Ela sorriu, triste.
— Eu venho aqui toda quinta para ouvir o primeiro show, porque era o show que ele tocava. E vou embora antes do segundo porque não aguento ouvir outra pessoa no lugar dele. Hoje alguém tocou a música dele. E eu não consegui ir embora.
— Sinto muito.
— Não sinta. Foi bonito. Faz dois anos que eu não sinto nada além de saudade. E hoje eu senti outra coisa.
— O quê?
Ela olhou para mim.
— Vontade de ficar.
Preparei mais dois negronis. Sem gelo, com casca de laranja queimada. Sentei do lado dela no balcão, do lado de fora, pela primeira vez em seis anos de trabalho. Ela se chamava Helena. A gente conversou sobre jazz, sobre perda, sobre a vida que continua mesmo quando a gente não quer.
Às três da manhã, ela me pediu para tocar alguma coisa no piano. Eu disse que não sabia tocar. Ela riu e sentou no banquinho, e tocou ela mesma, uma música alegre, desafinada, cheia de erros. Eu sentei do lado dela no banquinho. No meio da música, ela parou e me beijou.
O bar vazio, a chuva lá fora, as luzes baixas, o piano. Ela me levou para o apartamento dela, que ficava a duas quadras, cheio de partituras e fotos de um homem sorridente sentado ao piano. Ela virou os porta-retratos para baixo, um por um, com delicadeza. Depois voltou para mim.
— Não é esquecer — ela disse. — É continuar.
Hoje a Helena vem ao bar toda quinta. Ainda pede o mesmo negroni. Ainda senta no mesmo banco. Mas agora ela fica até o último show. E depois, me espera.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
