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A floricultura da esquina

10 de junho de 2026 2 min de leituraPor BonecaHot
Romance

Toda sexta-feira, às cinco da tarde, eu entrava na floricultura da esquina da minha rua e comprava um buquê. Rosas, girassóis, lírios, dependendo do humor. A florista se chamava Lívia, tinha mãos sempre sujas de terra, um avental de lona e um sorriso que fazia a semana inteira valer a pena.

— Para a namorada de novo? — ela perguntava, embrulhando as flores.

— Para a namorada.

— Ela é uma mulher de sorte. Toda semana flores.

O problema é que a namorada não existia. Eu inventei na primeira visita, por nervosismo, quando ela perguntou para quem eram as flores. E depois não tive coragem de desmentir. As flores iam para a minha mãe, para a vizinha idosa, para a recepcionista do prédio, para a mesa do meu escritório. Durante seis meses.

Numa sexta de chuva, entrei na floricultura e ela estava sozinha, fechando a loja mais cedo.

— Hoje vai querer o quê? — ela perguntou, sem o sorriso de sempre.

— Girassóis.

Ela embrulhou os girassóis em silêncio. Quando me entregou, segurou o buquê um segundo a mais.

— Posso te perguntar uma coisa?

— Pode.

— Como é que a sua namorada se chama?

Eu travei. Seis meses e eu nunca tinha pensado num nome.

— É... Fernanda.

— Engraçado. Semana passada a Dona Cida, sua vizinha, veio aqui me agradecer pelas rosas que você deu para ela. E a recepcionista do seu prédio é minha prima. Ela tem um vaso de lírios na mesa que, segundo ela, você trouxe.

Fiquei vermelho até a raiz do cabelo.

— Eu posso explicar.

— Pode. Estou esperando.

— Não tem namorada. Nunca teve. Eu inventei porque fiquei nervoso na primeira vez que entrei aqui. E depois continuei vindo porque...

— Porque?

— Porque eu queria te ver.

Ela ficou me olhando, com os girassóis entre nós dois. E depois começou a rir. Uma risada alta, que encheu a floricultura inteira.

— Seis meses! Seis meses comprando flores para os outros só para me ver!

— Eu sei. É ridículo.

— É a coisa mais fofa que alguém já fez por mim.

Ela virou a plaquinha da porta para "fechado". Tirou o avental. E me puxou para o fundo da loja, onde ficavam os vasos, as sementes e um sofá velho de veludo verde onde ela descansava na hora do almoço.

— Então essas são para mim — ela disse, pegando os girassóis.

— Sempre foram.

Ela me beijou no meio das flores. O cheiro de terra molhada, rosas e chuva tomou conta de tudo. As mãos dela ainda estavam sujas de terra e deixaram marcas na minha camisa branca. Eu não liguei. O sofá de veludo verde era pequeno, a chuva batia no telhado de vidro do fundo da loja e as flores olhavam tudo em silêncio.

Hoje a gente é casado. Na nossa casa tem flores frescas toda sexta-feira. E a Dona Cida ainda pergunta, toda vez que me vê, por que as rosas dela pararam de chegar.

Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.

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