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A dona da pousada

13 de maio de 2026 2 min de leituraPor BonecaHot
Relatos

Eu estava fazendo uma viagem de moto pelo Nordeste. Sozinho, sem roteiro, parando onde desse vontade. Cheguei em Lençóis, na Chapada Diamantina, no fim de uma tarde de calor absurdo, empoeirado, cansado, com a moto fazendo um barulho estranho. Parei na primeira pousada que vi.

A dona estava na varanda, numa rede, lendo um livro. Uns quarenta e cinco anos, cabelo cacheado grisalho solto, vestido de algodão branco, pés descalços, pele queimada de sol. Levantou os olhos do livro e me olhou de cima a baixo.

— Quarto?

— Uma noite só.

— Todo mundo diz isso — ela disse, levantando da rede. — Ninguém fica uma noite só na Chapada.

Ela se chamava Iracema. Tinha largado a vida de advogada em Salvador quinze anos antes e comprado aquela pousada velha. Morava sozinha, com dois cachorros, uma horta e uma piscina natural no fundo do terreno, que era um poço do rio que passava ali.

— A moto está com barulho — eu disse, no jantar, que ela mesma tinha cozinhado. — Amanhã cedo eu vejo um mecânico.

— O único mecânico da cidade está viajando. Volta em três dias.

— Três dias?

— Eu avisei. Ninguém fica uma noite só.

Na primeira noite, depois do jantar, ela me levou para o poço do rio no fundo do terreno. A lua estava cheia e a água parecia prata. Ela tirou o vestido sem cerimônia nenhuma e mergulhou nua. Eu fiquei parado na pedra, sem saber o que fazer.

— Você vai ficar aí olhando? — ela perguntou, boiando de costas.

— Eu não sei se devo.

— Aqui na Chapada, a gente não pergunta se deve. A gente pergunta se quer.

Eu queria. Tirei a roupa e mergulhei. A água era fria, depois ficou boa. Ela nadou até mim, com o cabelo cacheado molhado grudado no rosto, e me olhou nos olhos.

— Eu não faço isso com todo hóspede, tá? — ela disse.

— Com quantos você faz?

— Só com os que chegam empoeirados de moto e acham que vão ficar uma noite só.

Ela me beijou dentro do rio. Depois me levou pela mão até uma pedra lisa na margem, ainda quente do sol do dia. A lua cheia iluminava tudo, o barulho da água abafava o resto, e ela me mostrou que, na Chapada, não tinha pressa para nada.

O mecânico voltou em três dias. Consertou a moto em meia hora. Eu fiquei mais duas semanas.

— Você disse que ia ficar uma noite só — ela disse, na manhã em que eu finalmente fui embora.

— Você me avisou que ninguém fica.

— Volta?

— Volto.

Voltei seis meses depois. Desta vez, sem moto quebrada. Desta vez, sem data para ir embora. A pousada agora tem dois donos. E a primeira coisa que a gente diz para cada hóspede novo, quando chega dizendo que vai ficar uma noite só, é a mesma frase: ninguém fica uma noite só na Chapada.

Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.

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