A desconhecida do aeroporto
O voo para São Paulo foi cancelado às onze da noite por causa do mau tempo. O aeroporto de Confins virou um caos: fila na companhia aérea, gente dormindo no chão, criança chorando. Eu corri para o hotel do terminal, mas na recepção a moça deu a notícia com uma cara de pena.
— Só temos um quarto disponível, senhor. E tem uma senhora na sua frente.
A senhora na minha frente era uma morena de uns trinta e poucos anos, de blazer, mala de rodinha e cara de quem ia matar alguém. Ela olhou para mim, olhou para a recepcionista e suspirou.
— O quarto é de casal?
— Duas camas de solteiro, senhora.
Ela me encarou de cima a baixo. Eu devia estar com uma cara de cachorro abandonado.
— Você ronca?
— Não. Juro.
— Você é psicopata?
— Também não.
— Então a gente divide. Cada um paga metade e ninguém encosta em ninguém.
O nome dela era Fernanda, advogada, voltando de uma audiência. Subimos para o quarto, cada um com sua mala, constrangidos. Ela tomou banho primeiro e saiu do banheiro com uma camiseta larga e um short de pijama que deixava as pernas todas à mostra. Eu tentei não olhar. Falhei.
Pedimos um vinho do serviço de quarto, para quebrar o gelo. Depois mais um. Conversamos sobre tudo: trabalho, viagens, os ex que não deram certo. Ela riu das minhas piadas ruins. Eu ri de ela ter colocado dois travesseiros entre as camas "por precaução".
À uma da manhã, as luzes já apagadas, cada um na sua cama, ela falou no escuro:
— Ei. Você está acordado?
— Estou.
— Essa cama é muito dura.
— A minha também.
Silêncio. Ouvi o barulho do lençol se mexendo.
— Será que se juntar as duas fica melhor?
Levantei tão rápido que bati o joelho no criado-mudo. Ela caiu na gargalhada. Arrastamos as camas de solteiro uma para perto da outra, tirando os dois travesseiros "de precaução" do meio, e a regra de ninguém encostar em ninguém durou exatamente o tempo de a gente deitar.
A camiseta larga dela foi parar em cima do frigobar. O short de pijama, não sei. As duas camas de solteiro foram se afastando a noite inteira com o movimento, e a gente teve que juntar de novo umas três vezes, rindo, tropeçando no escuro.
De manhã, o voo foi remarcado para as dez. Sentamos lado a lado no avião, porque ela trocou de lugar com um senhor. Antes de pousar em São Paulo, ela anotou o telefone no meu cartão de embarque.
— Para o caso de outro cancelamento — ela disse.
Hoje a gente torce para chover toda vez que viaja junto.
Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
