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A carta que nunca enviei

14 de julho de 2026 3 min de leituraPor BonecaHot
Romance

Escrevi a carta aos vinte anos, no último ano da faculdade. Três páginas, frente e verso, contando para o Henrique tudo que eu sentia por ele desde o primeiro dia de aula. Nunca entreguei. Ele namorava a Larissa na época, e eu era só a melhor amiga, aquela que ajudava a escolher presente e ouvia as reclamações do namoro.

Guardei a carta numa caixa de sapatos. Mudei de cidade, de emprego, de namorado. Me casei, me separei. E a carta continuava lá, amarelando, entre fotos antigas e ingressos de shows.

Quinze anos depois, recebi o convite de casamento de um amigo da turma. Abri o envelope e vi a lista de padrinhos: Henrique estava lá. Divorciado, pelo que as redes sociais diziam.

Antes de sair para o casamento, abri a caixa de sapatos e coloquei a carta na bolsa. Não sabia se ia entregar. Só sabia que precisava tê-la comigo.

Ele me reconheceu de longe, na igreja. Veio me abraçar no fim da cerimônia, com o mesmo sorriso torto de quando tinha vinte anos.

— Mariana. Você está igual.

— Mentiroso. Estou quinze anos mais velha.

— E igual.

Na festa, sentamos na mesma mesa. Rimos das histórias da faculdade, das provas, das festas, das vezes em que dormimos no mesmo sofá depois de uma noite de estudos. Ele dançou comigo duas vezes. Na segunda, eu tomei coragem.

— Henrique. Eu tenho uma coisa para te dar.

Tirei a carta da bolsa e entreguei. Ele olhou para o envelope amarelado, para o nome dele escrito com a minha letra de vinte anos, e franziu a testa.

— O que é isso?

— Uma coisa que eu devia ter te dado há quinze anos.

Ele se afastou da pista, sentou num banco no jardim e leu. Eu fiquei de longe, com o coração na boca, assistindo. Ele leu as três páginas devagar. Depois leu de novo. Quando levantou o rosto, os olhos estavam molhados.

— Por que você não me deu isso naquela época?

— Porque você namorava a Larissa. E eu tinha medo de perder meu melhor amigo.

Ele levantou, veio até mim e me mostrou o celular. Abriu uma pasta de fotos antigas e me mostrou uma: eu, aos vinte anos, dormindo no sofá da república, fotografada por ele.

— Eu terminei com a Larissa três meses depois da formatura — ele disse. — Porque eu percebi que estava apaixonado por outra pessoa. Mas essa pessoa tinha ido embora para outra cidade.

O beijo que eu tinha esperado quinze anos aconteceu no jardim daquele salão de festas, com a música da festa ao fundo. Foi ainda melhor do que eu tinha escrito na carta.

Naquela noite, no quarto de hotel dele, ele me pediu para ler a carta em voz alta, enquanto tirava minha roupa. Eu li a primeira página. Na segunda, já não conseguia mais. Na terceira, a carta estava no chão, esquecida, e a gente estava recuperando quinze anos de atraso.

Hoje a carta fica num porta-retrato, na sala da casa que a gente divide. Ele lê de vez em quando. Diz que é a coisa mais bonita que alguém já escreveu para ele.

Obra de ficção para maiores de 18 anos. Todos os personagens são adultos. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.

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